• A MANHÃ

    Esta manhã
    hoje
    é um nome
    Fiama, 'Barcas Novas'
    É assim a manhã, um nome
    para o mundo, abrir os olhos como
    alguém que fala
    Podem o tempo ou a
    morte diurna
    dar aos olhos abertos o nada das palavras

    O sol será então
    o silêncio no olhar ou a mão
    sobre a testa
    que faz descer as pálpebras
    como se os dedos dessem à cabeça a verdade
    submersa nesse nada

    e a manhã viesse
    não como sombra vasta vestir a voz
    do corpo
    mas cobri-la da
    luz
    das palavras que faltam... more »

  • BREATH

    I won't be able
    to pull you from that abyss
    place you at the table
    I, too,
    I know it well enough, am also somehow dead,
    with you with this
    day
    that in taking shape left
    the breath of time
    audible in the cotton with which they stuffed
    your mouth... more »

  • COOL LEMONS

    Each time we came to the house
    of our long dead great grandparents
    who had chosen for it
    a place in the purity
    of absolute earth
    as
    spring was just beginning
    and grandmother would greet the swallows
    as if they were the same
    returning from the previous year
    and the buzzing of the beetles would make me
    feel that something was changing
    in my days and summer
    would be rising and the afternoon heat would swell
    my adolescent sex
    and before going back to shaking down the almonds
    my young uncle in a silence of sweat would be lying asleep
    each time we would see
    cool lemons
    dropping from their tree... more »

  • EM TEMPO ALHEIO

    Peço desculpa de ser
    o sobrevivente
    Drummond, As Impurezas do Branco
    Demasiados mortos para a
    minha memória
    O dia está aí um projector nos rostos
    que repetem
    cenas, deslocando-se entre os móveis
    polidos pelos anos e as árvores, com falas retardadas
    Não há quem sobreviva a ninguém no cenário
    são somente aparências o que está
    e o que falta,
    todos em cada um,
    enquanto ausentes o habitam como casa
    em tempo alheio
    Deixastes toda a esperança vós que entrastes
    na memória... more »

  • EMBANKMENT

    No fim quando as cidades
    não forem senão
    escombros procura

    na morada flagelada
    pela água das margens
    o espelho derradeiro e interroga:

    os lugares perdidos as margens
    por que tentas
    prendê-los com a água?... more »

  • EMBANKMENT

    In the end when cities
    are nothing
    but rubble search

    through your home
    scourged by the water at its banks
    for the last mirror and ask:

    the lost places the banks
    why do you try
    to grasp them with the water?... more »

  • ESPECTROS

    Restas Dentro da
    luz nascido
    erraste nas areias que
    foram para ti o universo Estás
    em tempos diversos onde a ave

    que sobrevoa agosto até ao
    extremo já não te vê e tu
    não podes ver
    as asas que te queimam
    Mas a vida descobre-te sozinho

    tropeçando na carne dos
    espectros E tu
    restas
    Essa luz é
    o nada A praia já entrou

    no verão
    infinito A aurora eterna
    expulsa-te Mas
    restas A memória
    interpreta-te és a

    vítima do dia que te recusa
    e exibe Nessa
    luz da origem
    sobrevives
    interrogando o corpo incorruptível... more »

  • GHOSTS

    And you remain Born
    within the light
    you strayed through sands that
    were the universe for you Now you find yourself
    in different times in which the bird

    that flies across August to its
    end no longer sees you and you
    can't see
    the wings consuming you
    But life discovers you alone

    stumbling upon the flesh of
    ghosts And you
    remain
    That light is
    nothingness The beach has already entered

    infinite
    summer Eternal dawn
    expels you But
    you remain Memory
    interprets you, you are the

    victim of the day that rejects and yet
    exhibits you In that
    light of beginnings
    you survive
    questioning your incorruptible body... more »

  • IN ANOTHER TIME

    I ask forgiveness for
    having survived
    Drummond, Impurities of White
    Too many dead for
    my memory
    The day is here a spotlight on faces
    that repeat
    scenes, moving between furniture
    polished by the years and the trees, speech sluggish
    There is no one surviving anyone else on this set
    they are just appearances what is
    and what is missing,
    all in each,
    while absent they inhabit the set like a house
    in another time
    Abandon all hope ye who enter
    memory... more »

  • MORNING

    This morning
    today
    is a name
    Fiama, 'New Boats'
    That's how the morning is, a name
    for the world, opening one's eyes like
    someone who is speaking
    May time or
    diurnal death
    give to open eyes the nothingness of words

    And so the sun will be
    the silence in a look or a hand
    upon a forehead
    that brings the eyelids down
    as if the fingers were giving to the head the truth
    hidden in that nothingness

    and the morning were coming
    not like a vast shadow to clothe the body's
    voice
    but to cover it with
    the light
    of the words that are not there... more »

  • MURO

    A transparência espessa
    do ar que devagar
    se formou tão depressa
    em frente do olhar

    é a de um muro fluido
    que não deixa passar
    o impuro murmúrio
    da voz sem luz nem ar... more »

  • O CORVO DE HYDE PARK (1989)

    Com o bico levanta as folhas de setembro
    Nos intervalos ouve a música dos pássaros
    e volta a caminhar sobre a relva manchada
    Pára de novo escuta e voa baixo
    sobre o tapete verde e castanho do tempo... more »

  • OS LIMÕES FRIOS

    De cada vez que vínhamos à casa
    dos bisavós longinquamente mortos
    que para ela tinham escolhido
    um lugar na pureza
    da terra absoluta
    quando
    principiava a primavera
    e a avó saudava as andorinhas
    como se no regresso
    do ano anterior as mesmas fossem
    e o sopro dos besouros me fazia
    sentir que qualquer coisa novamente mudara
    nos meus dias e o verão
    subia e o calor da tarde intumescia
    o sexo adolescente
    e antes de regressar ao varejo da amêndoa
    num silêncio de suor o jovem tio dormia
    de cada vez nós víamos
    da árvore desprenderem-se
    os limões frios... more »

  • RAVEN IN HYDE PARK (1989)

    With its beak it lifts September's leaves
    in intervals it listens to the music of the birds
    then walks across the mottled dawn
    It stops again listens then flies low
    across the green and chestnut carpeting of time... more »

  • SOLUÇO

    Não poderei
    tirar-te desse abismo
    sentar-te à mesa
    já estou
    também, sei bem, um pouco morto,
    por ti por esse
    dia
    que ao formar-se deixou
    o soluço do tempo
    audível no algodão com que taparam
    a tua boca... more »

  • WALL

    The thick transparency
    of the air that slowly
    took shape so quickly
    before one's gaze

    is that of a fluid wall
    that won't let through
    the impure murmur
    of a voice with neither light nor air... more »