• Acordas ansioso por saber

    Acordas ansioso por saber das grinaldas que o sangue
    abriu na noite. Enfrentas a manhã nua e devassa
    como a parede branca a que se rasga a forma
    de um cartaz antigo. Caíram os tapumes da confiança
    e eis presente, como nunca adversa, a geografia
    cada vez mais tensa.
    Vês a língua de areia servida de outra luz.
    A memória sumiu-se, cristalizou nos ecos.
    A gestação do medo arruinou as horas.

    Ensaias o andar antes sabido. Apenas expões a pele
    sem que o contorno do teu velho corpo
    revele indícios do que te vai por dentro. Reinventas no mundo
    a implantação do vulto, lavado agora das razões seguras.
    Estar vivo e acometer a claridade implica a vocação
    de afeiçoar o corpo à praça imposta.
    Há uma maneira apenas de enfrentar o frio.
    É transportar, por dentro, o próprio frio. Não fere, a decisão,
    muito para além das decisões alheias.... more »

  • As crianças

    As crianças
    carregadas de destino
    batráquios prisioneiros do pó e da vidraça
    alastram no papel o som e a cor dos seus débeis sorrisos.

    Arde-lhes já na face
    o circunflexo acento do desgosto -
    a reprimida força da malícia atenta.

    Miram-nos frias do fundo da película -

    crescem-lhes dentes de apetite oculto
    mandibulam ameaças de domínio
    destroem uma a uma
    as flores da idade
    e cobrem-se escarninhas
    de pêlos urticantes.

    Exibem unhas curvas
    afiadas para a disputa
    e denunciam intenções de assalto
    na lisa mansidão
    com que protegem a morosa espera.

    As crianças tiranizam o espaço que atingiram.
    Possessas
    dilaceram crianças de outras raças -
    assumem, rancorosas, o desdém na face
    e inquirem
    inocentes
    se os pretos têm nome.... more »

  • CANÇÃO PASTORIL

    eu nem sei como dizer:

    a minha vaca é parda
    como o fundo
    da toca da raposa

    farelo pisado

    casca caída
    entre dois cercados.
    lume de fogo apagado!

    e as malhas brancas que tem:

    na cara pintas do leite
    que as meninas lhe aspergiram

    nas ancas céu cintilante
    que o sol lhe pinta ao nascer.... more »

  • CHAGAS DE SALITRE

    Olha-me este país a esboroar-se
    em chagas de salitre
    e os muros, negros, dos fortes
    roídos pelo vegetar
    da urina e do suor
    da carne virgem mandada
    cavar glórias e grandeza
    do outro lado do mar.

    Olha-me a história de um país perdido:
    marés vazantes de gente amordaçada
    a ingénua tolerância aproveitada
    em carne. Pergunta ao mar
    que é manso e afaga ainda
    a mesma velha costa erosionada.

    Olha-me as brutas construções quadradas:
    embarcadouros, depósitos de gente.
    Olha-me os rios renovados de cadáveres
    os rios turvos do espesso deslizar
    dos braços e das mães do meu país.

    Olha-me igrejas agora restauradas
    sobre ruínas de propalada fé:
    paredes brancas de um urgente brio
    escondendo ferros de amarrar gentio.

    Olha-me a noite herdada nestes olhos
    e um povo condenado a amassar-te o pão.

    Olha-me amor, atenta podes ver
    uma história de pedra a construir-se
    sobre uma história morta a esboroar-se
    em chagas de salitre.... more »

  • FALA DE MUSURUKUTU

    nomeado rei pelos Mucubais para fazer a guerra e de quem, evadido
    que foi do hospital do Lubango, nunca mais se ouviu falar.
    Rei me fizeram para governar a guerra
    e do sangue da raça
    me investi.

    Perdi o reino e a graça de uma paz
    em que reinava sem ter sido eleito.
    A guerra está perdida:
    para me encontrar agora
    é procurar pastor.

    Pastor que sou
    ser rei não faz sentido e estar na vida
    é depender da chuva
    e não do mando.

    Que não vos dê cuidado
    a minha fuga.
    Não fujo para reinar
    porém para ter
    o sol de novo às mãos
    e o leite azedo.... more »

  • IN THE WORDS OF MUSURUKUTU

    named king by the Mucubais to make war and who, having escaped
    what was the hospital of Lubango, was never heard from again.
    They made me king to run the war
    and I invested myself
    with the blood of the race.

    I lost my kingdom and the grace of peace
    in which I reigned without being elected.
    The war is lost:
    to find me now
    you have to look for the shepherd.

    As a shepherd
    it makes no sense to be a king, and to be part of life
    is to depend on the rain
    and not the mandate.

    Would that my escape
    not worry you.
    I don't run away to reign
    rather to have
    the sun once again at hand
    and the sour milk.... more »

  • PASTORAL SONG

    I don't even know how to say it:

    my cow is the color of dung
    like the bottom
    of a fox den

    stamped down wood meal

    strewn husks
    between two paddocks.
    the color of snuffed flame!

    and what white spots it has:

    on its face, speckles of milk
    which the girls splatter there

    on its hips, the sparkling sky
    painted by the rising sun.... more »

  • SALTPETER SORES

    Look at this country reducing itself to dust,
    to saltpeter sores
    and the blackened walls of the battlements
    gnawed by the vegetate
    of urine and sweat
    of virgin meat sent
    to dig splendors and grandeur
    on the other side of the ocean.

    Look at the history of a lost country:
    tides of the gagged at a low ebb,
    the naïve tolerance exploited
    in flesh. Ask the sea,
    still serene, and caressing
    the same old eroded coast.

    Look at the square brutal buildings:
    the wharfs, people-depositories.
    Look at the rivers refitted with cadavers
    the rivers turbid with the dense flow
    of arms and mothers of my country.

    Look at the churches newly restored
    on top of the ruins of a propagated faith:
    white walls of an urgent dignity
    hiding shackles for binding the heathen.

    Look at the night inherited by these eyes
    and a people condemned to kneading your bread.
    Look, love, if you're attentive, you'll see
    a history of stone building itself
    on top of a history of death reducing itself to dust,
    to saltpeter sores.... more »

  • SIGN

    That was the year that the rains were excessive and mushrooms grew
    in dogs' eyes. The young bulls, looking out at the light from their mother's crotches, drowned in the mud, in the middle of the vines. The walls of the houses dissolved in cream and the potters no longer entrusted their work to God. Enormous measures were invented
    to protect the altar flames and the children started to run around naked.
    The termitaries ceased to exist and winged ants lost their wings. The feet of the oldest ones split open in sores and the breasts of virgins, as soon as you touched them, stuck to your fingers like wet ash. The lips of the birthing womens' sex swelled plumply like white meat and their bellies hung like soft fruit.
    That was the year the rain was excessive and the horizon ceased to exist.

    It rained forever until the dogs lost all their fur and people's hair stuck out like rotten seaweed. The King of Jau got stuck to his throne and the sacred bullock's eyes grew larger, and then went blind. The seed sprouted in the granaries and then it was served up to the men, just like that, and they were infused with such vigor that their cocks grew immeasurably and they reeled about, with the things in their hands, mute with the magic.

    The rain rained so much that the snakes left their snake-holes
    and stretched out next to sticks, raising their heads
    with only the greatest effort. Moss multiplied in the tureens of milk
    and the milk of cows turned to whey which curdled in urine.
    That year the rain rained so much that even the beaches grew
    branches and the rushing streams spawned fish and even the iron washed itself alone and diamonds started to tumble around the stones hollowed out for milling flour. The birds themselves nearly all died and the only ones that saved themselves were those with white feathers, which the distance attracted, then ate.

    And the rain was good for fossils, and there were minerals
    that came alive and even common stones that were transmuted into
    flesh.

    That year the rain rained so much that memory was rendered
    meaningless. Throats were clogged with sludge and the brows that the aged held in their hands fused with their fingers,
    and their arms fused to their legs and their graceful gestures smelt their bodies and the youngest children ended up glued to their mothers' breasts.
    Only our mouths dared to remain open and when the rain
    finally stopped, huge black birds flew from them and disappeared into the distance. And the drought came back and the world dried out. Now the ancient flesh has turned to dirt,
    the fossils to stone and the branches to humus.
    And footsteps gradually polished the forms.

    That year the rain rained so much
    that memory was rendered meaningless.... more »

  • SINAL

    Naquele ano a chuva foi excessiva e cresceram tortulhos
    nos olhos dos cães. Os vitelos, ao espreitar a luz pelos sexos
    das mães, afogavam-se em lama, no meio dos sambos. As paredes
    das casas diluíam-se em nata e os oleiros desistiram de encomendar
    a sua obra a Deus. Enormes cuidados foram inventados
    para proteger o fogo nos altares e as crianças adoptaram a nudez.
    As termiteiras deixaram de existir e as formigas aladas
    perderam as asas. Os pés dos mais-velhos fenderam-se em chagas
    e as mamas das virgens, mal eram tocadas, colavam-se aos dedos
    como cinza húmida. Os lábios dos sexos das mulheres paridas
    inchavam carnudos de uma carne branca e os ventres pendiam
    como fruta mole.
    Naquele ano a chuva foi excessiva
    e os horizontes deixaram de existir.

    Choveu por muito tempo até os cães perderem todo o pêlo
    e as cabeleiras se destacarem como algas podres. O rei do Jau
    ficou colado ao trono e ao boi sagrado cresceram-lhe os olhos,
    que depois cegaram. As sementes grelaram nos celeiros
    e essa semente assim era servida aos homens e daí lhes ocorreu
    um tal vigor que os seus sexos cresceram desmedidos
    e os homens vacilaram, tendo-os nas mãos e mudos de fascínio.

    A chuva choveu tanto que as serpentes saíram dos buracos
    e vieram alongar-se ao pé dos paus, mantendo com esforço
    as cabeças erguidas. Nas terrinas do leite vicejavam musgos
    e o leite das vacas alterou-se em soro, a coalhar na urina.
    Naquele ano a chuva choveu tanto que até nos areais cresceram
    talos e as enxurradas produziram peixe e até o ferro se lavou
    sozinho e os diamantes vieram rebolar nas pedras concavadas
    de moer farinha. As próprias aves morreram quase todas
    e apenas se salvaram as de penas brancas, que a distância atraiu,
    depois comeu.

    E aquela chuva aproveitou aos fósseis e houve minerais
    que se animaram e até pedras comuns a transmudar-se em carne.

    Naquele ano a chuva choveu tanto que a memória perdeu todo
    o sentido. As gargantas entupiram-se de limos
    e as testas que os velhos pousavam nas mãos fundiam-se aos dedos
    e os braços às pernas e os gestos de graça fundiam os corpos
    e as jovens crianças ficavam coladas ao peito das mães.
    Só as bocas teimavam em manter-se abertas e quando mais tarde
    a chuva parou, das bocas saíram grossas aves negras
    que abalaram logo daquelas paragens. E a seca voltou
    e o mundo secou. A carne antiga a dar-se agora em terra,
    os fósseis em pedra e as ramas em húmus.
    E os passos poliram pouco a pouco as formas.

    Naquele ano a chuva choveu tanto
    que a memória nunca mais teve sentido.... more »

  • The children

    The children
    loaded with their lot
    batrachian prisoners of dust and windowglass
    cover the page with the sound and color of their feeble smiles.

    Already the circumflex of displeasure
    is burning on their faces -
    the pent up power of attentive malice.

    They stare at us coldly from the bottom of the film -

    the teeth of veiled appetite grow in them
    they jaw threats of dominion
    destroy one by one
    the flowers of age
    and cover themselves jeering
    with the itchy skins of animals.

    They show their curved nails
    sharpened for the fight
    ready to attack
    with that smooth docility
    they use to protect the lingering hope.

    Everywhere the children go they tyrannize the place.
    Possessed
    they tear the children of other races to pieces -
    they wear their disdain in their rancorous features
    and ask
    innocently
    if the niggers have names.... more »

  • You wake longing to know what happened

    You wake longing to know what happened to the garlands that your blood
    opened during the night. You face the morning naked and depraved
    like the white wall from which you tear what's left
    of an old poster. The partitions of trust fall
    and here, right in front of you, adverse like never before, the geography,
    ever more tense.
    You see the tongue of sand under a different light.
    Memory vanished, crystallized in echoes.
    The gestation of fear ruined the hours.

    You practice the walk you used to know. You simply expose your skin,
    without the outline of your old body
    giving up a clue as to what's happening within. You reinvent the implantation
    of your human form in the world, for now washed of secure reasons.
    To be alive and to assail the clarity implies a vocation
    for adapting the body to the imposition of the town square.
    There's only one way to face the cold.
    It's to bring it, the cold itself, inside you. The decision doesn't wound,
    not more than the decisions of others.... more »